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Oito anos sem Amy Winehouse e ela continua poderosa

Foi no 23 de julho de 2011 que uma das vozes mais incríveis a ecoar neste mundo se calou. Ironicamente, seu grito não foi ouvido.

por Jonas Laskouski

Atualizado em 23/07/2019 - 01h52

Na música, os vocais femininos sempre me pegaram mais de jeito do que o dos homens. Sempre, desde pequenininho. Primeiro com deusas da música brasileira como Elis, Rita Lee, Alcione. Já mais moleque (e depois adulto) me encantei com mulheres como Madonna, Tina Turner, Aretha Franklin, Kate Bush, Whitney, Mariah, Alanis, Christina, Beyoncé, Adele. E até antes dessas, Billie Holiday, Nina Simone, Ella Fitzgerald… São muitas, tantas. Aí, esbarro em Amy Winehouse. Visceral, profunda, forte. Violenta.

 

E depois desse esbarrão com os ouvidos, você começa a descobrir detalhes sobre sua vida. E a imprensa, desde que ela surgiu no cenário, chafurdou-se na lama que, infelizmente, cercava sua história. “Foi em 23 de julho de 2011 que morreu de forma trágica a maior e mais estonteante artista britânica do século 21”, escreveu a jornalista Nicolle Cabral em uma reportagem publicada no site da Rolling Stone. No título, “Amy Winehouse transformou sua dor e angústia em jazz, mas ela não era só isso”. É o texto que o Se Liga compartilha acompanhado de um vídeo onde Amy canta “Valerie” acusticamente. Só sua marcante voz e o violão num dos melhores momentos gravados durante sua curta vida.

 

“Você acha que vai ser famosa?”, pergunta Garry Mulholland para Amy Winehouse, em uma entrevista registrada no documentário Amy, dirigido por Asif Kapadia. “Acho que não. Minha música não está nesta escala, às vezes, eu gostaria que estivesse, mas eu não vou ser nem um pouco famosa. Eu acho que eu não aguentaria. Provavelmente, eu enlouqueceria”, responde ao jornalista.

 

O polêmico documentário ganhou o Oscar na categoria em 2016. Não viu ainda? Simples: veja (Imagem: Reprodução)

 

Na época, talvez, não imaginasse até onde a sua infância regada a soul e jazz, em um bairro suburbano de Londres, ao lado de sua família judia, a levaria. Com uma voz estonteante, rouca, e quase sempre, triste, Amy Winehouse entregou, com apenas 27 anos, um imenso legado musical mesmo com apenas dois álbuns surpreendentemente coesos.

 

O primeiro (Foto: Reprodução)

 

O primeiro, Frank, lançado em 2003, refletiu a capacidade lírica e harmônica da cantora e seu mergulho nas raízes do jazz. A obra recebeu elogios entusiasmados da crítica e rendeu a ela, os seus primeiros prêmios. Em 2008, o álbum registrou mais de 900 mil cópias vendidas no Reino Unido e alcançou platina duplo pela Indústria Fonográfica Britânica.

 

O segundo, responsável por transformá-la em um tremendo sucesso como cantora, trouxe uma sonoridade com novos adereços, entre eles, uma influência jamaicana, como o ska, e a incorporação do R&B contemporâneo.

 

“We oly say goodbye with words…” (Imagem: Reprodução)

 

Black to Black, lançado em 2006, foi o retrato do talento provocativo e marcado pelos conflitos da sua separação com o seu então namorado Blake Fielder-Civil. Esse foi o seu caso de amor, uma nuvem escura que alimentava sua depressão e que ironicamente foi o combustível por trás de todas as músicas que amamos.

 

O casal no Coachella de 2017 (Foto: Michael Buckner/Getty Images)

 

Entre elas, os sucessos “Tears Dry On Their Own”, “You Know I’m No Good”, “Rehab” e a canção homônima do disco. No ano seguinte, o álbum – e a melancolia inerente dele – transformou Amy na artista feminina britânica mais premiada em uma única edição do Grammy e se tornou o disco mais vendido do século 21 no Reino Unido. A reação dela ao ser anunciada como dona da “Música do Ano” é um dos momentos mais genuínos da história da música. Ela bateu “Irreplaceable”, da Beyoncé; “The Pretender, do Foo Fighters; “Umbrella”, da Rihanna e “What Goes Around Comes Around”, do Justin Timberlake – de quem ainda tira uma no vídeo.

 

 

Com olhos exageradamente delineados e um enorme coque no estilo ‘pin-up’, Amy foi uma personalidade além do seu tempo. Talvez até uma alma antiga dentro de um corpo muito jovem. Ao ser consumida por relacionamento conturbado, a cantora lutou durante grande parte da sua vida pública contra o vício em drogas.

 

E, infelizmente, foi encontrada morta no dia 23 de julho de 2011, na sua casa em Camden Town, no norte de Londres, enquanto as suas emoções ainda se mostravam nuas e cruas.

 

A causa da morte foi dada pela médica legista Shirley Radcliffe, em 2013, que concluiu a investigação como uma morte acidental por ingestão de álcool depois de um período de abstinência.

 

Aos 27, assim como Jim, Jimi, Janis e Kurt. A conspiração ama essas ligações (Foto: Reprodução)

 

ALÉM DO RETRATO VULNERÁVEL DE SEU RELACIONAMENTO E USO DE DROGAS

Devido aos últimos anos intercalados entre problemas com drogas, bebidas e o seu relacionamento, Amy não chegou a finalizar um álbum sucessor ao Black to Black.

 

Com isso, Mark Ronson e Salaam Remi, que desde o início acompanham a carreira da cantora, foram responsáveis por apresentar o projeto intitulado de Lioness, o primeiro álbum de compilação póstumo. Neste disco estão gravações de Amy antes mesmo do lançamento do seu primeiro projeto, Frank, e canções que a cantora estava trabalhando em 2011. Uma das composições presentes é “Between the Cheats”, gravada em 2008, que revelou mais um capítulo de sua relação com Fielder-Civil e direcionou nossos ouvidos para um novo caminho da artista por apresentar uma mistura mais pop e direta.

 

Sim, Amy pode ter evidenciado uma tendência autodestrutiva e nos mostrado, aos poucos, o seu desmoronar. Como em um show no Kalemegdan Park, em Belgrado, Sérvia, em que a artista errou grande parte das letras de suas músicas e fez a apresentação embriagada. Mas ela realmente acreditava no seu próprio futuro.

 

Registro do show em Belgrado (Foto: Reprodução)

 

Amy vivia a música e o jazz. Definitivamente, ela não era as suas drogas, a sua reabilitação, o retrato da sua vida amorosa infeliz, ou a bomba-relógio, que grande parte das manchetes dos jornais estampavam.

 

Amy era todas as coisas que realmente a motivaram e a faziam bem.

 

Umas das imagens mais lindas da diva (Foto: Tammy Lucciano)

 

Desde nova, sua família viveu mergulhada nesse universo. Sua avó, por exemplo, namorou Ronnie Scott, uma lenda do jazz britânico, nos anos 1940, e seus tios, por parte de mãe, são músicos profissionais de Jazz.

 

Em casa, ouvia com frequência os sons de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Dinah Washington e sempre foi movida pela possibilidade de cada vez mais, estudar a música.

 

Sorte nossa que houve tempo de um dueto incrível entre ela e Tony Bennett (Imagem: Reprodução)

 

Antes de sua morte, revelou em algumas entrevistas que pensava em gravar um álbum de jazz “mais purista”, e usou como referência os britânicos Soweto Kinch, Jazz Jamaica e Tomorrow’s Warriors como possíveis talentos para trabalhar junto.

 

Amy Winehouse foi um turbilhão de talento e perturbações, que a direcionou a um estilo de vida alvo de atenções bruscas, mas toda a vulnerabilidade fez com que sua música se estendesse como algo atemporal. E isso, ela fez com êxito.

 

Fica a sensação de querer ter feito alguma coisa pra ajudar, sabe. Como se fosse alguém próximo (Foto: Reprodução)

 

A sua substância e talento conseguiu se sobressair em um mundo obcecado pelas celebrações superficiais e espetáculo de suas dores para transformar essa ambientação caótica no que genuinamente lhe trazia prazer.

 

Em 2003, a cantora disse ao The Guardian: “a música é a única coisa que eu tenho real dignidade na vida. Essa é a única área em que eu posso levantar a cabeça e dizer: ‘ninguém pode me tocar'”. E de fato, não podem. Com a breve passagem e imenso talento, Amy segue influenciando artistas contemporâneas como Jorja Smith, Adele, Corinne Bailey Rae que a imprimem como retrato de genialidade.

 

Garry, o mesmo jornalista que perguntou sobre o futuro de sua carreira, foi o primeiro a entrevistá-la e publicar um perfil da compositora em 2004. “Calorosa, engraçada, brilhante e honesta”, é assim que Amy deve ser lembrada.

 

 

 

 

 

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